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Egipto: Seis camelos pela namorada

"Viagens Soltas", crónicas de Rui Daniel Silva

09/11/2016 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva

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Rui Daniel Silva | Egipto

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  • Egipto, no olhar de Rui Daniel Silva
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Egipto, no olhar de Rui Daniel Silva1 de 4

Era meia-noite quando eu e a Patrícia chegámos à cidade do Cairo. Depois de três horas de atraso em Madrid, nunca pensei que o taxista da pousada ainda estivesse à nossa espera no aeroporto.

Era um senhor de estatura baixa, careca e com bigode. Chamava-se Said e era bastante simpático. Entrámos no carro rumo à pousada e percebemos imediatamente que esta cidade respirava um certo caos.

Mas que confusão, o trânsito. Uma estrada de três filas que se transformava rapidamente numa de cinco ou seis. Cada um safava-se como podia. Um amontoado de carros onde o código de estrada não fazia qualquer sentido.

Sempre que olhava para o lado tinha alguém de outro carro mais perto de mim do que o meu condutor, que estava no mesmo veículo.

Finalmente na pousada, acordámos um preço com o taxista para nos mostrar, no dia seguinte, as mais famosas atrações turísticas do Cairo.

Chega o dia, e lá estava Said na pousada à nossa espera.

O primeiro objetivo seria visitar a pirâmide de Saqqara, a mais antiga e misteri-osa de todas as pirâmides, com a sua conhecida construção em degraus. À nossa volta tínhamos um quadro unicolor. O deserto, a areia e as suas cons-truções.

Um senhor muito simpático de túnica branca ofereceu-se para nos tirar uma fotografia. Uma fotografia, duas fotografias. Agora aqui, agora ali. Parecia uma sessão fotográfica para casamentos, da qual já me estava a fartar.

Percebendo que este momento se iria prolongar por muito mais tempo, agra-deci toda a gentileza e pedi a máquina de volta. Quando o fulano entrega a máquina, pede-me imediatamente dinheiro. Não percebendo bem o porquê deste pedido, questionei a razão. Queria dinheiro porque esteve a tirar fotogra-fias e não trabalhava de graça. Sem eu lhe ter pedido nada e sendo ele a ofe-recer-se, não achei muita piada a esta exigência.

Após alguma insistência áspera da parte dele dei-lhe uma moeda para colocar um ponto final neste remexido. O homem ficou indignado com o que lhe tinha dado e queria mais. Virei costas e fui-me embora.

De seguida, visitámos a cidade de Memphis, onde se encontra o gigante co-losso de Ramsés II. Esta estátua feita de uma única peça de pedra de dez metros de altura e mil toneladas de peso, mostra toda a perícia e mestria dos escultores egípcios.

Com um calor infernal e abafado, decidimos tomar um café numa esplanada com o nosso taxista, o Said.

Após um minuto, já tínhamos um fulano com um ar bastante simpático a meter conversa. Tinha uma loja mesmo ao lado e queria mostrar-nos como se fazia o papel através da planta do papiro. Entrámos na loja e é claro que no final, pediu dinheiro.

O efeito boomerang de uma ociosidade ao mais alto nível por parte dos nativos estava enraizado nas veias destes fulanos. Após todas estas simpatias e amabilidades disfarçadas com segundas intenções, acabei por me tornar num fu-lano rude e antipático.

Principalmente após o próximo episódio, que vou relatar. Estava com a Patrícia, apenas a olhar para uma mesquita, quando passou um fulano e nos diz o nome da tal mesquita. Agradeci a informação e imediatamente ele pediu di-nheiro. Disse-lhe que não lhe iria dar nada, pois não lhe tinha pedido qual-quer informação. Mas este insistiu pelo fato de nos ter dito o nome da mesquita.

A partir desse momento transformei-me num tipo antipático. Já não olhava para ninguém. Já sabia que se estivesse a olhar para o chão, provavelmente me diriam que aquela areia seria do deserto do Saara.

Olhar para o céu também estava fora de questão. Provavelmente alguém me diria que estava a olhar para um Boeing. Visto como um mealheiro ambulante em terras do Nilo, fechei-me para o mundo.

De seguida, fomos a Gizé almoçar, de onde partimos de camelo para visitar as famosas pirâmides. Um transporte engraçado, mas por vezes desagradável. Todavia, a paisagem que nos rodeava valia todo o esforço. Um almejar de be-leza e venustidade medrava dentro de nós. A cada passo sentíamos o tempo a regredir centenas e milhares de anos. Uma aproximação lenta e cautelosa, até chegar a 2700 a.C.

Eis finalmente as famosas pirâmides de Gizé. Sem dúvida, um momento mági-co com a sensação de uma viagem ao passado.

Na vinda, o guia que estava connosco teve um inopinado descaramento.

Este sedutor de bigode e pele escura ofereceu-me seis camelos em troca da Patrícia. Como não estava nada à espera deste ato absurdo, desatei às garga-lhadas. Disse para falar com ela, ao qual ele respondeu que não fazia negó-cios com as mulheres. Insistiu mais uma vez e eu tentei não dar qualquer importância.

Achei melhor nem brincar. Ele ainda me ficava com a namorada e depois eu ficaria com seis camelos para quê? Onde levá-los para Portugal ? No avião? Já me estava a imaginar a fazer o check-in no aeroporto com seis passaportes dos camelos com destino a Lisboa. Ou então uma viagem de 4 meses por terra até chegar a Portugal.

Enfim! O que vale é que nos vamos rindo com algumas incongruências espa-lhadas pelo mundo. O mundo é mesmo assim. Uma caixinha de surpresas a cada passo e a cada cultura com que nos cruzamos.

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