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Uma boleia surreal na ilha do Fogo

"Viagens Soltas", crónicas de Rui Daniel Silva

27/12/2016 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva

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Viagens Soltas: Uma boleia surreal na ilha do Fogo

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Uma boleia surreal na ilha do Fogo1 de 9

Depois de uma viagem agitada desde a ilha de Brava, chegámos finalmente à ilha do Fogo.

Devido à última erupção em 2014, há lava por todo o lado e o caminho até Chã das Caldeiras é improvisado por caminhos de terra batida.

No primeiro dia, debaixo de um calor abrasador e quase nenhuma sombra, explorámos toda aquela área a pé.

No dia seguinte, acordámos às 6 da manhã para subir até ao Pico do Vulcão. Demorámos cerca de 3 horas. Entre algumas subidas mais difíceis e o forte vento que se fazia sentir, ficámos exaustos, mas sem dúvida que valeu todo o esforço. Estar por cima das nuvens com vista para a cratera é algo de inexplicável. Não há palavras para descrever o que sentimos naquele momento. Fica-se boquiaberto.

Infelizmente, tinha chegado a hora de nos separarmos. Enquanto os meus amigos iriam continuar por mais 3 semanas em Cabo Verde, eu tinha voo no dia seguinte para Santiago.

Na pousada onde almoçámos, tentei saber se havia turistas que iriam para São Filipe, a principal cidade da ilha, onde apanharia o avião. Não havendo qualquer turista nesse dia, perguntei pelo preço dum táxi. 50 euros! Nunca iria pagar aquele preço por uma viagem de uma hora. 50 euros tinha eu pago para fazer no dia seguinte a viagem de avião até Santiago!

Sentei-me na esplanada e esperei cerca de meia hora até passar a primeira viatura. Mandei parar e pedi boleia até à próxima localidade. Nessa localidade tinha transporte até São Filipe. Pedido aceite, despedi-me dos meus amigos e entrei no Jeep.

Os viajantes eram bem simpáticos e faladores. O João, que ia a conduzir, o Ângelo e o senhor António, que já tinha 76 anos.

Aconselharam-me a sair noutra localidade mais perto da capital, onde poderia apanhar uma Hiace, o famoso transporte público para São Filipe.

Passados 20 minutos, param o Jeep ao pé de uns trabalhadores. Cumprimentam o pessoal e sacam de um bidão de gasolina do Jeep. Quando reparo, o bidão não trazia gasolina mas sim… vinho! E serviam vinho a toda a gente, inclusive a mim.

Apesar de brincarem comigo por ser português, eles eram super educados.

“ Anda lá português. Tens de beber mais um copo! “

Todo este banquete inesperado de vinho durou mais de uma hora. Tinha bebido 4 copos de vinho maduro. Como tinha comido pouco ao almoço, começava a sentir as pernas a tremer. Finalmente entram no Jeep, ligam o motor e quando eu achava que seria desta que nos iríamos embora, estava bem enganado.

Passa uma motorizada com 2 tipos, cumprimentam-se e voltam a desligar o motor da viatura. Mais uma rodada de vinho para todos! Só visto!

Eu já nem sabia se havia de rir ou implorar os deuses. Sabia apenas que o último transporte para São Filipe, lá na tal vila mais próxima, era às 18 horas.

Sem stressar, deixei-me levar apenas pelo momento, pois achava que de uma maneira ou de outra iria chegar à capital.

Por um lado até estava a achar piada a uma boleia “com tudo incluído”. Só me faltava mesmo a pulseira como nos Resorts.

Meia hora depois continuamos finalmente a viagem.

Já meio tocado da pinga o senhor António não se calava. Queria que o João parasse o Jeep numa certa localidade. Param o Jeep e sai o senhor António disparado. Passados uns minutos volta com 4 queijos enormes. Um para cada um. Aceitei de bom grado, já que o vinho me estava a subir à cabeça.

 

Mas a aventura do comes e bebes não ficou por aqui. 

 

20 minutos depois voltam a parar numa vila. 

 

Entrámos numa mercearia e pediram cerveja. Como se não bastasse uma, tivemos todos de beber outra para não contrariar o senhor António.

 

Seguimos viagem e no caminho eles reconhecem um condutor dum Jeep. Achando que este vai para São Filipe, ultrapassam e mandam-no parar. 

 

Bingo! Mesmo destino que eu. Despeço-me do pessoal e mudo de viatura seguindo viagem até São Filipe. Desta vez sem qualquer paragem para comer ou beber! A boleia com tudo incluído tinha acabado.

 

Chego a São Filipe e, sem nenhuma vontade de gastar dinheiro, caminho até ao aeroporto para passar a noite.

 

O segurança diz que o aeroporto fecha durante a noite e que não posso ficar nas imediações do aeroporto.

 

Explico que não tenho dinheiro e procuro um lugar mais afastado para tentar dormir. Tiro o saco cama e encosto-me a uma pedra.

 

Aparece novamente o segurança a dizer que não posso ficar ali e que já tinha chamado o chefe do aeroporto.

 

Passado 5 minutos chega uma carrinha de caixa aberta que pára junto de nós.

 

Explico ao chefe que não tenho dinheiro e que o meu voo é de madrugada. Educadamente, ele diz que é muito perigoso passar ali a noite e que terei de ficar no centro da cidade. Ao ouvir isto, um rapaz que ia atrás na carrinha disse que eu poderia ficar no quarto dele. Aceitei de bom grado o convite.

 

A carrinha arranca e quando chegámos ao local ele entrega-me a chave do quarto. Diz-me para eu estar à vontade. Simplesmente para deixar a chave em casa quando sair. Fiquei sem palavras com este gesto.

No dia seguinte, acordo de madrugada, sigo para o aeroporto e despeço-me desta forma de Cabo Verde.

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