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Viagens Soltas | A Moldávia é mesmo isto

Uma crónica de Rui Daniel Silva.

28/09/2017 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva.

Rui Daniel Silva | Moldávia

Admito sem qualquer tipo de pudor que não me agrada de todo visitar capitais ou grandes cidades. No entanto, existem algumas que são especiais e que nos marcam pela diferença. Contudo, Chisinau não teve esse impacto.

O que eu ambicionava, de certa forma, nesta efémera passagem por este país, seria visitar Orheiul Vechi, um dos lugares mais bonitos da Moldávia. Sendo que este complexo arqueológico se encontra a uma distância de 60 quilómetros de Chisinau decidi acordar bastante cedo.

Perdido entre ruas e ruelas da capital, procurei durante algum tempo a praça de onde partiam os transportes públicos. Encontrar um sujeito que dominasse o inglês por estas bandas, era pura miragem.

Contudo, os nativos eram bastante simpáticos. Falavam comigo no seu vernáculo como se eu entendesse alguma coisa. Não valia a pena escarafunchar estes autóctones com o intuito de encontrar alguém que falasse inglês. Seguia as indicações que faziam com as mãos, até encontrar finalmente uma tacanha avenida, com inúmeras carrinhas carunchentas e dilapidadas.

A honestidade desta gente agradava-me imenso. Mesmo sendo turista, paguei o mesmo que os habitantes locais. Um euro e trinta cêntimos por cerca de uma hora de locomoção. Com música em altos berros, a carrinha mais parecia um bailarico em movimento.

Aos poucos, as paisagens transformavam-se numa outra silhueta. Vinhas e campos verdes grifavam esta locomoção bucólica até avistarmos ao longe, Orheiul Vechi.
A vista era puramente estonteante. A caminhada até Orheiul Vechi começa em Trebujeni, uma humilde e acanhada aldeia. No alto de uma cordilheira emparelhada com o rio, este complexo combina, em plena harmonia, natureza e vestígios de várias civilizações antigas.

Numa assomada, duas igrejas erguem-se no seu alto, galardoando viajantes e nativos com um cenário opulento e sumptuoso. Uma dessas igrejas tinha uma característica bastante invulgar e única, um santuário subterrâneo com uma saída para o exterior por entre as rochas. Não percebendo como chegar a este templo, decidi permear a margem do rio, para observar melhor.

Ao longe, uma linha saliente entre as montanhas parecia ser um trilho até ao tal templo. Por isso mesmo, voltei ao mesmo sítio e encontrei uma tacanha vereda. Entre uma paisagem sublime acompanhando o percurso do rio, tudo parecia completamente normal, até o tal trilho desaparecer. Olhava à minha volta e não conseguia conceber qualquer caminho.

Seguindo as vozes dos nativos que se encontravam na tal rocha com entrada para o santuário, improvisei uma pequena escalada. Até parecia fácil e divertido, mas apenas até a um certo ponto. Algumas rochas alcantiladas com difícil acesso e subidas vertiginosas formalizavam a minha locomoção num misto de receio e apreensão. Tentava não olhar para baixo, pois tinha perfeita consciência que se desse um passo em falso, estatelar-me-ia por ali abaixo. Com os batimentos cardíacos ao rubro, parava a cada passada para descansar, até alcançar o meu objetivo. Malgrado a minha cara de felicidade, tinha-me enganado redondamente. A tal rocha com acesso ao santuário ficava a uns bons metros de onde eu me encontrava, mas desta feita, impossível de alcançar.

Alguns nativos fitavam-me pasmados e questionavam-me como tinha ali chegado. Outros sorriam e acenavam-me com um olá. Definitivamente o caminho não era este, uma vez que era possível observar algumas crianças acompanhadas dos seus pais. Respirei fundo e fiz o mesmo caminho de volta.

Quando cheguei ao complexo arqueológico, questionei um casal que tinha avistado na tal rocha, sobre o caminho. Segui as indicações e, para não variar, o caminho estava mesmo à vista de todos. Uma simples entrada por um túnel até ao tal santuário, que só eu não tinha visto. Não querendo intitular-me novamente de cromo devido a esta peripécia, vou considerar este imprevisto como um extra neste passeio.

De volta ao local onde as carrinhas deixavam os passageiros, sentei-me a fumar um cigarro, onde minutos antes estavam uns habitantes locais a fazer o mesmo. Qual o meu espanto, quando a proprietária da loja ao lado refilou comigo por eu estar a fumar. Se uns podem e outros não, a única explicação verosímil que encontro para este caso bicudo é que se trata de um espaço exclusivamente para fumadores oriundos da Moldávia.

Uma outra situação, que fez com que soltasse uma valente gargalhada, foi quando vi um cavalo com uma placa de um táxi em cima, a puxar uma carroça. Poderia perfeitamente findar esta crónica desta forma, mas não posso deixar de partilhar um dos casos mais incoerentes e desarrazoados que alguma vez me aconteceu num aeroporto. Estava eu a passar a zona de controlo, quando um agente me interpelou por levar água. Sabia perfeitamente que não podia passar com líquidos, mas tinha-me esquecido de retirar a garrafa de água. Até aqui, uma situação completamente normal.

Logo após este sucedido, um nativo com uma enorme garrafa de 7 Up foi abordado pelo mesmo agente. Sabem o que aconteceu? O fulano resmungou e refilou com a autoridade, que não iria entregar a garrafa. Mas quanto a esta atitude, todos nós sabemos que de nada vale a pena protestar ou resmungar com as autoridades. É que nem temos hipóteses. Aliás, somos bem capazes de arranjar ainda mais problemas. Mas a verdade, é que esta história teve um desfecho sui generis. O autóctone acabou mesmo por ficar com a enorme garrafa de 7 Up e eu fiquei meio pasmado a fitar o agente.

Talvez o problema, fosse mesmo o tamanho da minha garrafa de água, demasiado pequena. Por esta lógica incoerente de um paradigma absurdo, creio que seria mais fácil, numa próxima vez, levar um garrafão ou até mesmo uma pipa de vinho.


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