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Viagens Soltas: Guiné-Bissau, duro e difícil

Uma crónica de Rui Daniel Silva.

23/03/2017 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva

Conceber em poucas palavras um título para uma odisseia em solo africano é tempo esbanjado. Não vale a pena levar a lição estudada ou até mesmo atulharmo-nos de cábulas. Neste continente respira-se a cada segundo o descortinar de inopinadas situações, e por isso mesmo cada jornada é um mistério.

Esta aventura foi como imergir num livro onde letra após letra somos usados como tinta numa folha pela mão de um escritor. Cada letra era um segredo. Cada página era uma confidência, e a cada folhear, a história poderia mudar de rumo, sem qualquer cabimento iminente. Letra após letra, a nossa pequena odisseia teve os seus alicerces na cidade de Dacar, no Senegal.

Após semana e meia a pedalar contra tudo e contra todos, desde o confragoso calor ao peso dos alforges, tínhamos a Guiné-Bissau diante de nós. Finalmente o desembrulhar de um sonho, que aos poucos começava a ganhar forma. Mas a chegada à fronteira era apenas o limiar de uma epopeia, pautada por alguns imprevistos e surpresas. O objetivo era chegar a Bissau e oferecer a bicicleta a uma criança.

Tal era o desfastio por termos chegado à Guiné-Bissau que nada nos conseguia parar, nem mesmo o obstinado calor calcinante e férvido. Estradas planas, com paisagens tracejadas de palmeiras, davam-nos boleia nos primeiros quilómetros. Sentíamo-nos imbatíveis. Porém, essa invencibilidade fora apenas uma serventia efémera para o que viria a seguir.  

Com o passar do tempo, as tais estradas planas converteram-se rapidamente em imudáveis subidas e descidas. Quilómetros a fio num sobe e desce, onde a locomoção ganhava um certa rotina indesejada. Cinco longos minutos a pedalar uma subida, com rostos estampados de sofrimento, para depois, em apenas alguns segundos, descermos novamente até ao fundo, embalados pela força da gravidade.

Não foi preciso muito tempo para rogarmos as primeiras pragas a tudo o que nos rodeava. As inúmeras subidas eram um problema. O calor tórrido e abafado era outro obstáculo. O peso que carregávamos na bicicleta era somente mais uma dificuldade, e para completar este gigantesco puzzle entranhado de dilemas, a falta de água e comida era o ponto fulcral de todos estes embaraços.

Só passado algum tempo conseguimos encontrar uma pequena barraca numa aldeia. Água, nem vê-la. Felizmente tinham latas de Coca-Cola à venda, o que naquele momento soava a ouro.

A falta de eletricidade ainda é uma realidade bem patente neste país e por isso mesmo os nossos refrescos não eram realmente fidedignos refrescos. Mas na falta de melhor, a maldita Coca-Cola quente, que mais sabia a xarope, era um elixir para as nossas papilas gustativas.

Passado algum tempo, brotou a primeira evidência que levar a lição estudada para este continente não serve de nada. Estávamos em São Domingos e queríamos apanhar um barco até Cacheu, para não contornar o rio.

Chegámos à margem do tal rio e não havia vestígios de qualquer barco ou pescador. Questionámos alguns nativos e percebemos que seria impossível transpor o rio. Talvez me tenha precipitado ao pronunciar a palavra impossível. Possível até era, mas dia e hora exata, para tão desejada travessia, pairavam no ar como um segredo guardado a sete chaves. Rostos com enormes pontos de interrogação e nenhuma certeza fizeram com que seguíssemos viagem, mudando os nossos planos iniciais. Sendo assim, teríamos de pedalar ainda mais para chegar à tão desejada capital guineense.

Malgrado este percalço, após alguns quilómetros, encontrámos finalmente comida numa pequena povoação. Duas sandes e dois sumos por uns míseros cinquenta cêntimos. A pureza e sinceridade de quem nos tinha vendido aquele sustento eram incontornáveis.

Agradecemos aos deuses por este manjar no meio do nada e prosseguimos o nosso desfile em duas rodas, entre paisagens áridas e desérticas.

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