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Viagens Soltas | Guiné-Bissau: Uma alma bondosa

Uma crónica de Rui Daniel Silva.

28/04/2017 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva

Viagens Soltas | Guiné-Bissau: Uma alma bondosa

O calor sufocante que se fazia sentir era um autêntico pesadelo para a nossa locomoção. Naquele preciso momento, olhava para o sol como um rival e ansiava mesmo que aquela maldita estrela, em torno do qual a Terra se move, sumisse e nos concedesse enfinamente algum sossego.

Com uma certa aversão ao calor, a sombra tornara-se a nossa melhor amiga. Talvez até mais do que uma amiga, uma amante, porque a química que se tinha gerado entre nós e a sombra era tão membruda que até as simplórias sombras no meio das estradas eram desfrutadas para descansar.

Passadas algumas horas a pedalar sob um maléfico calor, resolvemos parar numa aldeia e aproveitar mais uma vez o repouso junto a uma sombra. Desta feita, o tal cobiçado espaço privado de luz foi concebido por uma simples casa. Com estradas de terra batida e areia, estávamos completamente sujos e imundos.

Pelo tom de pele, parecíamos mais dois argelinos do que dois genuínos lusitanos. Exaustos e enfraquecidos, deitámo-nos no chão. Imediatamente, uma senhora bastante afável levou-nos um tapete de palha para nos sentarmos. Agradecemos a generosidade, mas recusámos, por estarmos completamente grudentos. Após alguma insistência por parte da nativa, decidimos aceitar este gesto tão nobre. Sendo que éramos falsos argelinos, devido a todo o surro plantado e pegajoso no nosso corpo, acabámos por sujar o tapete todo à senhora. Pedimos desculpa, mas a senhora nem queria saber se o tapete estava sujo ou não.

Apenas sorria, parecendo estar feliz por nos estar a ajudar. Passadas algumas horas, chegámos a Ingoré, uma pequena cidade no norte da Guiné-Bissau. Era hora de jantar e por isso mesmo resolvemos vasculhar um local para comer. Havia apenas um restaurante em toda a cidade, mas este módico número era invariavelmente melhor do que nada.

O problema era que o tal único restaurante nesta tacanha povoação estava fechado. Por sorte, um senhor bastante simpático, que nos viu meio desamparados à frente do estabelecimento, interpelou-nos. Percebendo que não tínhamos onde jantar, convidou-nos para comer em casa dele. Com tal gesto nobre, retiro a palavra sorte da penúltima frase.

Sugiro mesmo ao leitor que neste preciso momento risque essa palavra, porque não encaixa de forma alguma nesta crónica, manchando até o nome desta gente tão ilustre e hospitaleira. Não foi um rasgo de sorte. Foi a simplicidade de uma alma tão daimosa que ao ver dois seres humanos desamparados sem comida, decidiu abrir o coração sem nos conhecer de lado algum. É isto o povo da Guiné-Bissau.

Fugindo um pouco ao contexto, ou até talvez não, sublinhar ou escrever uma palavra em negrito no meio de uma crónica será certamente um ato bastante incongruente ou até mesmo intolerável. Mas há pessoas que nos marcam de tal maneira que merecem ser honradas e imortalizadas por gestos tão louváveis como este. Seres humanos que sabem verdadeiramente o significado da palavra amor.

E por isso mesmo  vos apresento esta alma tão caridosa, o Bonifácio. Sem pensar duas vezes, aceitámos imediatamente o convite. Enquanto o Bonifácio foi ao mercado comprar peixe para cozinhar, ficámos numa tasca a beber cerveja e a conversar com alguns autóctones. Finalmente um genuíno refresco, na verdadeira semântica da palavra. Uma hora depois, já com tudo preparado, o senhor veio chamar-nos e fomos até ao seu aposento.

Ao longo do caminho, deparei-me várias vezes com uma situação deliciosa e onde é notória toda a benevolência e amabilidade deste povo. As poucas pessoas que tinham televisão compartilhavam este quadrado mágico na rua com todos os habitantes. Uma televisão rodeada por miúdos e graúdos, onde a felicidade pairava no ar.

Após a refeição, queríamos seguir caminho e procurar um sítio para acampar. Como já era bastante escuro, o senhor Bonifácio ofereceu-nos um quarto para passar a noite.

Cada vez mais, este povo me cativava e foi nesse preciso momento que os nossos corações decidiram retribuir da mesma maneira.

 O nosso grande objetivo, para além da viagem em si, seria oferecer as bicicletas a duas crianças, quando chegássemos a Bissau.

Como o Bonifácio tinha dois filhos, perguntámos se ele estava interessado nas bicicletas.

Ao ouvir esta proposta, o homem esboçou um sorriso enorme, aceitando prontamente os velocípedes. Explicámos que a nossa meta seria chegar à capital, mas que poderíamos marcar um encontro no último dia para entregar as bicicletas.

E assim foi, como verão mais adiante. Com a Guiné-Bissau a ganhar cada vez mais encanto, adormecemos de coração cheio.

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