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Viagens Soltas | Omã

Uma crónica de Rui Daniel Silva.

12/10/2017 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva.

Rui Daniel Silva | Omã

Chego ao aeroporto de Mascate, capital de Omã, e pago quinze euros pelo visto, para poder entrar no país.

O Sultanato de Omã fica situado na Península Arábica e faz frontei-ra com o Iémen, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos.

Mal saio do aeroporto, sinto imediatamente um ar abafado e quen-te.

Com uma paragem de autocarros mesmo ao lado, aguardo mais de uma hora para apanhar um autocarro até ao centro da cidade.

Acabo por desistir pelo calor insuportável e intenso que se faz sen-tir.

Apanho um táxi e vou até um Hotel para deixar a minha mochila.

Antes de sair do Hotel, a rececionista foi bastante simpática e atenciosa. Chamou-me e explicou-me o valor das moedas por es-tas estarem escritas em árabe.

Mascate é um verdadeiro oásis no deserto. Rodeado por escarpas à sua volta e localizado nas margens do Golfo de Omã, é uma ci-dade lindíssima, charmosa e cheia de contrastes, com ruas bas-tante limpas. O branco é a cor predominante nas casas e nos edi-fícios.

É impressionante olhar à nossa volta em pleno médio oriente e poder observar as influências dos portugueses.

A capital Mascate foi conquistada por Afonso de Albuquerque em 1507 e esteve mais de um século sob o domínio luso.

Os fortes Al Jalali e Al Mirani são uma forte presença da coloniza-ção portuguesa neste país.

A cada passo, deliciava-me em cada recanto contemplando esta joia sublime. Todos os contrastes encaixavam na perfeição neste magnífico puzzle.

Em pleno Ramadão, tinha de comer, beber e fumar às escondidas.

O Ramadão é um ritual de jejum que os muçulmanos praticam to-dos os anos durante 29 ou 30 dias. Durante esse período privam-se de comer, beber, fumar ou ter relações sexuais desde que o sol nasce até que se pões.

Sendo assim, por vezes escondia-me para beber a pouca água que tinha ou para fumar um cigarro.

Sendo este um período de uma privacidade absoluta e exagerada para mim, também os estabelecimentos estavam todos fechados.

Desde a minha chegada a Omã, ainda não tinha encontrado nada aberto.

Alimentava-me de algumas barras de cereais que tinha e a água começava a ficar escassa.

Caminhava que nem um louco e não encontrava nada para comer.

Percorria todas as ruelas à procura de alguma loja aberta. Um au-têntico labirinto desértico onde todos os estabelecimentos estavam fechados. Poucos ou nenhuns eram os nativos com quem me cru-zava durante o raiar do sol.

Alimentava-me apenas da venustidade e encanto desta cidade, que neste momento era o menos importante para mim. Tal era o desânimo que já nem fotografias tirava.

Passadas algumas horas, estava sem comida e sem água.

Desesperado, parava em todas as sombras que encontrava ao longo do caminho.

Sem dúvida que neste momento a sombra era a minha melhor amiga. Uma aversão tremenda ao calor medrava dentro de mim como nunca antes tinha sucedido.

De um sol muitas vezes cobiçado por mim naqueles dias frios e invernosos em Portugal, eis que anseio e suplico aos deuses todos os antónimos relacionados com calor e sol.

Uma incongruência total dos meus habituais desejos.

Só queria algum vento ou até mesmo chuva.

Sentia-me bastante fraco, lânguido e sem qualquer energia. São quase quatro da tarde quando finalmente vejo uma porta de um estabelecimento meia aberta.

Desesperado, espreitei sorrateiramente e pedi educadamente se podia entrar.

Não sei se tiveram ou não pena de mim.

A verdade é que o dono foi bastante compreensível e afável, sem ser preciso qualquer tipo de lamúria da minha parte.

Comprei água e dois bolos que pareciam chamuças e ainda me ofereceram mais uma.

Agradeci toda esta amabilidade por saber que não costumavam vender nada durante o dia.

No primeiro beco que encontrei escondido, devorei os bolos com todas as minhas forças.

Com a chegada da noite, a cidade transforma-se por completo. O toque de Midas enfeitiça esta cidade desértica e silenciosa numa outra agitada e extrovertida.

Mascate solta-se. Apenas andou disfarçada durante o dia.

Uma cidade mágica onde os nativos passeiam com as suas túnicas brancas, bebendo chá em cada viela.

As pessoas eram bastante simpáticas e acenavam quando passa-va. Tirar fotografias era relativamente fácil e não me pediam di-nheiro em troca.

Para acabar a noite, um negociante meteu conversa comigo. Quando disse que era português, proferiu o nome de todos os jo-gadores da seleção.

Convidou-me para entrar na loja, mostrando orgulhosamente a coleção que tinha de notas portuguesas antigas, ainda em escu-dos.

E assim me despeço de Omã. Uma cidade encantadora com os seus nativos bastante hospitaleiros.


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