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Brava, a ilha surpresa

Rui Daniel Silva é cronista da revista de viagens “Diaries of”.

06/07/2016 | Fonte: Texto cedido por Rui Daniel Silva

Fotos

Rui Daniel Silva | Ilha Brava

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  • Ilha Brava, no olhar de Rui Daniel Silva
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Ilha Brava, no olhar de Rui Daniel Silva1 de 7

Mais que uma viagem ou uma odisseia este encontro entre 3 amigos de longa data acabou por se revelar num exemplo de socialização e humildade.

Com ideias e opiniões diferentes fomo-nos moldando ao longo de cada passo, transformando esta viagem numa aprendizagem.

Todos diferentes. Sem dúvida. Cada um com o seu caráter e feitio.

Mas tínhamos algo em comum. Uma fome insaciável por viajar e descobrir o mundo.

Sem dúvida que o verbo “viajar” nos corre no sangue e ao ouvi-lo desperta de imediato em nós um sorriso.

Mas vamos ao que interessa.

Brava. Onde fica Brava? Em Cabo Verde? Desconheço por completo.

A ideia de visitar um local com pouca informação sempre me fascinou.

O pisar da bota entre labirintos de caminhos não pisados revela-se muitas vezes uma agradável surpresa e a ilha de Brava não fugiu à regra tornando-se num elixir para quem busca realmente aventura.

Num lado temos Brava, o palco onde se passa todo o enredo.

Do outro temos a plateia. Eu, o Jorge e a Anabela.

As cortinas vão-se abrindo aos poucos e aceitamos de bom agrado o bom que esta ilha tem para nos oferecer.

Brava, tal e qual como o próprio nome indica não é uma ilha fácil de se chegar. Com um aeroporto que já fechou há mais de 20 vinte anos devido a ventos fortes, a única maneira de se chegar a esta ilha é de barco.

Pouco ou nada sabíamos sobre esta ilha e deixámo-nos levar ao sabor do vento.

E é mesmo ao sabor do vento que começa esta aventura.

Em pleno oceano atlântico sentimos toda a raiva do mítico gigante Adamastor que faz balançar o barco.

Entre alguns enjoos dos passageiros devido à agitação do mar o que nos valeu foram as paisagens, acompanhadas por vezes pelos saltos de alguns golfinhos.

Com uma curta paragem na ilha do Fogo o barco segue até chegar à Brava.

São 21 horas e estamos finalmente na vila de Furna.

Um dos objetivos era atravessar esta ilha a pé por estradas e trilhos até à outra ponta, Fajã
d´Água.

Sem qualquer intenção de encontrar uma pousada, aventurámo-nos no escuro com uma lanterna até arranjarmos um sítio para acampar.

Montadas as tendas, procurámos umas pedras que nos serviria de banco. Depois de alguma fadiga iríamos finalmente consolar as nossas papilas gustativas com fatias de Pizza que tínhamos comprado na cidade da Praia.

Entre risos e gargalhadas fomos partilhando histórias até o sono bater à porta.

Acordar no dia seguinte depois de ter montado a tenda em plena escuridão, tornou-se numa bela surpresa.

Tínhamos uma vista fantástica para a ilha do Fogo.

Tendas arrumadas, tomámos o pequeno-almoço e seguimos viagem com o peso da mochila até Vila Nova de Sintra.

São cerca de 6 km sempre a subir.

Vila Nova de Sintra é uma vila pequena mas com o seu charme.
A praça principal com os seus jardins coloridos, convida-nos a tomar um café em pleno silêncio.

Depois dum almoço merecido continuámos viagem a pé. O objetivo era fazer o trilho da Levada que nos levaria até Fajã d´Água.
De características vulcânicas, Brava é um território bastante montanhoso, com picos muito elevados e vales profundos, atingindo uma altura de 976 metro no Pico das Fontainhas.

Todo o caminho até ao corte para o trilho da Levada é a subir.

Meios perdidos mandávamos parar alguns carros que passavam por nós para saber onde começava o trilho. Trilho encontrado e apesar da pouca informação, deixámo-nos embalar a cada passo.

Entre vales e montanhas os nossos olhos deliciavam-se com a vista fantástica sobre a baía de Fajã d´Água. A cada 10 metros que avançávamos, as máquinas fotográficas entravam em ação para capturar cada imagem, como se fosse um modelo a pousar só para nós.

Por vezes perdidos, seguimos os nossos instintos até chegar a Fajã de Água.

Esta vila à beira-mar é sem dúvida um estímulo para todos os sentidos.

Decidimos montar as tendas para passar a noite e surge um pequeno problema.

O vento forte dificultava-nos a vida e tivemos de desistir depois duma vareta da tenda se ter partido.

Acabámos por dormir ao relento ao pé duma escola para nos proteger da ventania.

No dia seguinte continuámos a nossa caminhada pela encantadora costa até encontrarmos umas piscinas naturais onde tomámos um banho.

Numa carrinha de caixa aberta apanhámos boleia entre locais e pescadores até Vila Nova de Sintra para fazermos outro trilho.

Este trilho de cerca de 3 horas até Eugénio Tavares é uma das experiências cénicas mais incríveis que se pode ter.

Se alguma vez acordasse naquele local sem saber onde estava, diria sem dúvida alguma “ Estou no Peru”.

Entre vales e caminhos estreitos com pequenas construções de pedra, parecia que estávamos a fazer um trilho pelos caminhos incas.

Com uma vista fantástica sobre a ilha do Fogo e o vulcão decidimos passar a nossa última noite aqui.

De volta a Vila Nova de Sintra e já com tudo preparado tivemos uma má notícia.

Os ventos fortes dificultavam a vinda do barco até à ilha de Brava. Ninguém sabia quando iríamos ter viagem para o Fogo. Sem saber o que fazer e com toda esta incerteza arranjámos uma pousada para poder tomar um banho e descansar.

Às 19 horas saímos para jantar e quando chegámos o restaurante iria fechar nesse dia mais cedo. A rapariga explicou que iria trabalhar para a inauguração dum Hotel e que estávamos todos convidados.

Jantámos noutro restaurante, perdemos a vergonha e fomos à inauguração do Hotel.

Quando chegámos ao local, tínhamos à nossa frente uma casa banal. Não se parecia nada com um Hotel.

Subimos até ao 3º piso e um senhor veio de imediato ter connosco dar as boas vindas.

Num terraço cheio de locais e de boa simpatia assistimos a um grupo de músicos a tocarem morna.

No dia seguinte acordámos cedo para saber quando teríamos barco para o Fogo. Ninguém sabia de nada. Ainda poderia ser no próprio dia ou só no dia seguinte.

Sendo assim, não podíamos ir para muito longe para estarmos sempre a par das notícias.

Era domingo de Páscoa.

Pouco ou nada havia para fazer naquela pequena vila.

Então decidimos ir ver um jogo de futebol entre a Juventude da Furna contra o Benfica da Senhora do Monte.

Um jogo ao mais alto nível.

16 - 0 foi o resultado. Surreal. Cada vez que ia buscar uma cerveja o resultado já era outro.

Nesse mesmo dia tivemos a notícia que o barco iria sair no dia seguinte.

Depois duma noite bem passada fizemos o trilho que vai de Vila Nova de Sintra até à Furna.

Na Furna, vários locais estavam a jogar um jogo chamado “Uril”. Um tabuleiro com 12 buracos e berlindes. Depois de tanta curiosidade nossa fomos convidados a participar. Cada um tinha o seu treinador pessoal e eles riam-se à brava pela nossa ignorância. Toda a gente dava um palpite com estratégias para vencermos.

Passado uma hora chega finalmente o barco.

Sem dúvida que Brava é uma ilha mágica. Poucos ou nenhuns turistas. Umas paisagens de cortar a respiração e uma simpatia tremenda por parte dos locais.

E assim acaba a nossa viagem pela Brava.

Ao sabor do vento deixamo-nos levar para a próxima aventura. A ilha do Fogo.

Sobre o autor

Rui Daniel Silva, um professor de piano de 38 anos, é um dos contribuidores habituais da revista "Diaries of".

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