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Fatú d´Xande fazedora de rosário vive “intensamente” o San Jon desde os 5 anos

A senhora é uma das veteranas dos festejos do São João em São Vicente.

19/06/2018 | Fonte: www.sapo.cv | SAPO c/ Inforpress

Fatú d´Xande, 67 anos, que desde os 5 anos está nas lides do San Jon, em São Vicente, com os pais, luta, hoje, para que essa tradição prevaleça em todas as nuances, mesmo na técnica de fazer rosário.

De nome próprio Maria de Fátima Monteiro, esta ganhou a alcunha Fatú d´Xande a partir do nome do marido, Alexandre, mas isso não vem ao caso da história dessa senhora que é uma das veteranas dos festejos do São João (San Jon, em crioulo), em São Vicente.

Essa missão, Fatú segue-a desde tenra idade, a partir do momento em que os pais resolveram “fincar” uma das primeiras barracas, em 1956, que alimentava o povo que procurava Ribeira de Julião, a 24 de junho.

Um ano depois, o pai comprou uma propriedade que lhes serviria de “refúgio”, agora durante o mês de junho inteiro.

“A partir de 10 de junho mudávamos para lá e passávamos todas as festas juninas. Eu adorava isso tanto que quando entrei para a escola não me importava de fazer o trajeto, a pé, de Ribeira de Julião até Chã de Cemitério, todo santo dia”, conta Fatú, “com orgulho”.

Foi nesse ambiente que cresceu e aprendeu a amar o San Jon, que na sua casa tinha sabor a “midje ingron” (milho em grão), carne assada, linguiça, “friginote” e outras iguarias confecionadas com ingredientes tirados da horta, que mantinham ao redor da propriedade.

Essa gastronomia podia ser encontrada na barraca, uma das poucas que existiam naquele tempo na Ribeira de Julião, mantida pelos seus pais, três filhos, incluindo Fatú, e a avó materna.

“A minha família vivia San Jon com muita alegria e entusiasmo, eu como criança adorava também quando toda a gente vinha embora e podíamos então estar à porta de casa a brincar e a ouvir as histórias contadas pelos mais velhos”, lembra.

Todas essas lembranças não foram esquecidas, nem mesmo quando Fatú teve que se ausentar para trabalhar alguns anos na ilha do Sal.

Depois de regressar, procurou resgatar, em 1997, essa tradição que, como disse, tinha perdido “um pouco da sua essência”.

Para isso decidiu aproveitar a propriedade dos pais para construir um restaurante, o conhecido Restaurante Mix, na Ribeira de Julião, e que trouxe de volta a gastronomia que saboreou na infância e juventude.

“San Jon é uma tradição da nossa família que não quero deixar morrer”, afirma Fatú, que parece estar a conseguir os intentos, uma vez que neste ano, por estar acamada na decorrência de uma queda, quem toma as lides da organização é o marido e a filha mais velha.

Tudo para fazer jus ao tempo, em que, como lembra, adorava ver as senhoras com os xailes à cintura e de rosário ao pescoço.

Aliás, esse último item tem muita importância porque, como diz, “quem vai à Ribeira de Julião e volta sem rosário é como se não tivesse ido”, mas que a seu ver não tem sido valorizado da melhor maneira.

Como diz essa “veterana”, as pessoas fazem os rosários de milho ou mancarra para comercializar, mas fazem-nos “de qualquer maneira” sem saber o “real significado” que é o de simbolizar o terço religioso.

“O rosário representa as 10 novenas e antigamente era feito com grãos de milho e que eram entremeados com os grãos de café ainda em casca”, explica Fatú, que se recorda que este era ainda colocado num pequeno pé de milho ou cana, que as pessoas traziam ao ombro quando regressavam à cidade.

Apenas uma das nuances do San Jon de São Vicente que Fatu quer preservar, e que passa ainda pela construção de um arraial que funcione o ano inteiro para servir de “referência” aos nacionais e a turistas.

Um “sonho” que gostaria um dia de ver materializado, quem sabe com ajuda de algumas autoridades competentes na área da cultura.

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