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Rabelados, um símbolo de resistência que se tornou cultura

Venha conhecer a comunidade de Espinho Branco

14/10/2014 | Fonte: www.sapo.cv | Susana Duarte

Fotos

  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Uma das visitantes da comunidade
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Extensão dos rabelados de Espinho Branco
  • O preparar do almoço
  • O preparar do almoço
  • O preparar do almoço
  • Maria Oliveira é a premeira mulher licenciada da comunidade
  • O presidente da Associação de rabelados
  • A arte dos rabelados
  • A arte dos rabelados
  • A arte dos rabelados
  • A arte dos rabelados
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  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • A arte dos rabelados
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  • A arte dos rabelados
  • Rabelarte, onde são expostos os trabalhos artísticos
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • Rabelados de Espinho Branco
  • A arte dos Rabelados
  • Tchecho, é o líder espiritual da comunidade
  • Rabelarte, onde são expostos os trabalhos artísticos
  • Rabelados de Espinho Branco

Rabelados de Espinho Branco1 de 45

Ao chegar a Espinho Branco começam a reconhecer-se as casas de palha. À entrada as placas convidam a visitar a comunidade dos rabelados. As portas estão sempre abertas e Tchecho é o primeiro a receber os visitantes. A viagem até ao local é de cerca de uma hora e meia a partir do centro da cidade da Praia. Depois do Tarrafal encontra-se a comunidade.

Quem vem, vem à procura de conhecer esta comunidade que se tornou num símbolo da resistência de Cabo Verde quando em 1940 a igreja católica portuguesa quis impor novos padres e novos costumes no culto religioso. Rabelados foi o nome que lhes deram por não terem aceite as mudanças. Durante anos foram maltratados, construíam casas que eram apedrejadas e por isso pouco tempo depois tinham de se mudar.

Foi assim por muito tempo, até que os rabelados começaram a construir os seus abrigos em pontos altos onde pudessem estar mais resguardados dos olhares estranhos. À comunidade de Espinho Branco foram juntando-se um maior número de elementos que às restantes dos cerca de 400 exisentes no país.

Quando em 2006, o pai de Tchecho morreu, a comunidade decidiu que seria ele o próximo líder. Um dos filhos mais novos de Nho Agostinho, Tchecho assumiu com naturalidade a posição de chefe espiritual, apesar de na altura o facto de apenas ter 22 anos ter incomodado muitos.

"O grupo dos rabelados de Espinho Branco foi criado por Nhonho Landim, mas o primeiro chefe foi o meu avô Nha Fernanda, o seguinte foi o meu pai Nho Agostinho e o terceiro sou eu", contou Tchecho ao SAPO Viajar.

"Os rabelados sempre estiveram sozinhos, sem nome, sem Estado, fazíamos a nossa arte, vendíamos e trabalhávamos na pesca e agricultura", relembrou.

Tchecho registou-se apenas aos 18 anos por vontade própria e aprendeu a ler sozinho, sem nunca ter ido à escola.


Tradições e Crenças

A comunidade ainda se identifica com a bandeira do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). "Antes mesmo de a bandeira existir, o meu avô viu o nome nas nuvens, na altura da independência a bandeira foi entregue como símbolo de resistência de Amílcar Cabral", contou.

Um símbolo que não mudou, mesmo com a mudança do partido nacional. Desde então a bandeira passou a ser usada nos cultos e nos funerais.

No entanto, para os rabelados a morte é apenas uma mudança para o eterno. Amílcar Cabral é o exemplo disso: "Ele não morreu, ele mudou."

As crenças animistas mantêm-se, tal como o respeito pela natureza. Nas suas casas tanto o humano como os animais têm o direito à vida.


A arte

O lado artístico foi sempre cultivado nos rabelados, contudo foi com a chegada de Misá que começou a ser mais trabalhado. A venda de artesanato e pintura tornou-se na sua grande fonte de rendimento com a promoção da artista plástica junto de outras pessoas que começaram a visitar a comunidade.

As exposições no país vieram aos poucos, em 2007 Misá levou Tchecho a Espanha para expor os seus quadros na ARCO, Feira Internacional de Arte Contemporânea de Madrid.

"Pinto, faço escultura, faço cerâmica e inspiro-me na nossa realidade, na forma como vivemos desde o início do dia até ao final, no nosso culto e nas nossas tradições", explicou Tchecho.

Na comunidade, o ensino destas artes começa cedo. No espaço Rabelarte encontram-se obras tanto de miúdos e graúdos. As peças envolvem-se na sua visão do seu dia-a-dia e no seu imaginário.

"Todo este espaço em frente à entrada dos rabelados é dedicado à valorização do seu património. Vamos ter uma praça com várias pequenas casas e aqui vamos fazer uma vez por mês uma reunião entre artesãos locais e outras regiões de Santiago", afirmou Misá.

Dentro do Rabelarte, cada artesão tem o seu cantinho de exposições em que facilmente se identificam as diferentes visões de quem pinta e faz escultura.

"Os quadros dos rabelados são uma testemunha da forma intuitiva como eles vêem a realidade, eles têm um centro imaginativo muito grande e uma forma muito espiritual de ver a vida ", contou Misá.

Tchecho, Steve, Sabino, Josefa e Kanhobai são alguns dos criadores dos quadros que enchem a sala, além dos que trabalham a cerâmica e das obras dos mais novos que são iniciados desde cedo na criação artística.


Organização da comunidade

Com as mudanças dentro da comunidade, agora todos têm uma palavra nas decisões e Tchecho passou a assumir a liderança apenas espiritual, enquanto as tarefas de organização passaram para o presidente da Associação dos rabelados.  

Agora a comunidade quer mais e tem muitos projectos em curso. Em frente à casa dedicada à exposição da sua arte, o espaço Rabelarte, querem construir uma cozinha para servir um restaurante, além de outras estruturas como um museu tradicional e um centro de internet.

José Carlos Tavares é quem está à frente da Associação dos rabelados há cerca de um ano, uma posição que é rotativa. "Criámos a associação para ver se conseguíamos ter alguns apoios a nível de outras instituições", explicou o responsável. É através da associação que pedem ajuda para os estudantes, para os idosos, o alargamento dos terrenos ao Estado, entre outros trabalhos.

Actualmente, a comunidade vive da arte, agricultura e também do trabalho fora dos rabelados. Um símbolo dessa evolução é Maria Oliveira, a primeira mulher rabelada a licenciar-se.

"Aqui vivemos numa comunidade e quando vamos para fora encontramos um estilo de vida diferente. Quando comecei a frequentar a Universidade da Assomada pensei que se contasse que sou rabelada que as pessoas se afastariam de mim, mas com o tempo, quando comecei a ganhar confiança com os meus colegas, contei-lhes e eles ficaram contentes, já vieram visitar a comunidade e tudo", contou Maria Oliveira.

No entanto, as tradições estão cada vez mais a ser colocadas à prova na comunidade. "Os rabelados não trabalham nem sábado nem domingo, por que são dias de culto, mas vou ter que repensar isso quando encontrar trabalho", referiu Maria Oliveira.

Com a chegada dos jovens às universidades, a comunidade pretende tornar-se mais forte com o conhecimento dos seus membros.

"A comunidade mudou, mas ser rabelado ainda significa respeitar a nossa tradição, a nossa espiritualidade e o nosso património cultural", afirmou Tchecho.

Na entrada, as casas são quase todas de palha, mas na extensão da comunidade são construídas casas de blocos e cimento, algumas por pintar, outras já pintadas. À passagem há sempre o convite para o visitante entrar em cada casa, “nem que seja para tomar um sumo” e a promessa de voltar a visitar é obrigatória. A sua simpatia e simplicidade são as suas maiores riquezas. A sabedoria espiritual que cultivam transborda nos silêncios calmos em cada conversa.

A sua grandeza espiritual não mudou com o tempo, mas a comunidade está diferente. Desde que se abriu ao mundo, já há água canalizada e electricidade e crianças de todas as idades frequentam a escola e as mulheres já se vêem no mesmo pé de igualdade que os homens. Há muitos que partem para trabalhar, mas voltam sempre.

Ser rabelado já não significa estar à parte da sociedade, mas ser parte do grande património cultural cabo-verdiano.

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