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Cidade Velha: Moradores “contestam” medidas impostas sobre construções

A localidade sustenta o título de Património Mundial da Humanidade há 9 anos

26/06/2018 | Fonte: www.sapo.cv | Inforpress

Moradores da Ribeira Grande de Santiago (Cidade Velha), manifestaram-se hoje “satisfeitos“ com o título de Património Mundial da Humanidade que o município ostenta há 09 anos, mas “descontentes” com as medidas impostas localmente, em termos de construções.

No dia em que passam nove anos sobre a data em que a Cidade Velha foi classificada como Património Material e Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), a Inforpress falou com alguns moradores do “berço” da nação cabo-verdiana para fazer uma avaliação dos benefícios, ganhos e avanços do sítio histórico.

Luciano Semedo, responsável do restaurante “Penedinho”, vê com muita satisfação o facto de a Cidade Velha ser hoje Património Mundial da Humanidade, mas lamenta que essa classificação não tenha contribuído para a melhoria da cidade em si, e beneficiado a população, sobretudo, a juventude que, conforme realça, “se encontra no desemprego”.

“O número de turistas que visitam Cidade Velha tem aumentado, mas as condições de acolhimento são péssimas, a começar pelas questões básicas como, por exemplo, uma casa de banho (urinóis) na via pública”, aponta o morador que afirma que, devido à grande procura nesse sentido, o seu estabelecimento vê-se obrigado a aumentar as instalações sanitárias, mas não pode fazê-lo devido às medidas impostas pela elevação do local a Património Mundial da Humanidade.

Entretanto, considera que as pessoas estão mais consciencializadas em relação à preservação, conservação e valorização dos sítios históricos, mas alerta as autoridades para a questão da proliferação de cães vadios que deambulam pelas ruas.

“Estamos satisfeitos com esse título, mas quanto ao desenvolvimento não se nota ainda impacto nenhum”, afirma categoricamente Luciano Semedo.

Também Adelina Gomes, outra moradora local, manifesta o seu desagrado em relação às medidas referentes à construção que, a seu ver, não têm contribuído para nada, realçando, sobretudo, o facto de não haver empregos, particularmente para os jovens.

“Fizemos um pedido para construção e até agora não recebemos nenhuma resposta por parte da Câmara Municipal ou do Instituto do Património Cultural (IPC), entidade responsável dos sítios históricos”, explica a moradora que também corrobora a ideia de, transcorridos nove anos após o reconhecido da Cidade Velha como Património da Humanidade, a população local não ter sentido nenhum benefício.

Por seu turno, a estudante universitária Nélida Lopes partilhou com a Inforpress que é com muita satisfação e orgulho que vê a Cidade Velha ostentando o título de Património Mundial da Humanidade, mas lamenta que a classificação não tenha dado resultados palpáveis, por exemplo, a nível da criação de emprego e de melhoria de vida da população.

Várias outras opiniões registadas pela Inforpress incidiram nesse aspeto, mas o presidente da Câmara Municipal de Ribeira Grande de Santiago (CMRGS), Manuel de Pina, “desvaloriza as reivindicações dos moradores”.

Incidindo primeiro na questão das tais medidas referentes à construção, o autarca explica que, para além de ser uma das recomendações da UNESCO, a população está ciente de que Cidade Velha é um “sítio sensível, com arquitetura específica e que deve ser preservada e valorizada”.

“Não é possível construir agora um prédio na Cidade Velha porque irá descaracterizar todo o sítio histórico. Mas entendo que precisamos ainda de continuar com uma campanha de mobilização e sensibilização para fazer com que as pessoas entendam a utilidade do sítio e a necessidade de o preservar enquanto Património Mundial da Humanidade”, realça o autarca.

Por outro lado, o presidente da câmara acha que neste momento não há necessidade de ter uma casa de banho pública, isso porque, conforme explica, as infraestruturas construídas na Cidade Velha já dispõem de casas de banho que podem ser utilizadas pelos turistas, tendo realçado ainda que o arrendamento de alguns estabelecimentos turísticos por parte da autarquia foi diminuído para que se possa salvaguardar essa vertente pública do sanitário.

No meio dessas opiniões cruzadas, a Inforpress registou também o ponto de vista do Instituto do Património Cultural (IPC).

Hamilton Jair Fernandes, o PCA do instituto em apreço, reconhece que os ganhos “ainda não são satisfatórios” porque ainda não conseguiram maximizar aquilo que poderia ser um ganho para um sítio património mundial, se comparado a outros bens classificados nessa mesma linha, mas explica que isso “é um processo de fases”.

“Conhecendo Cidade Velha como nós conhecemos, conseguimos facilmente localizar os insatisfeitos e muitas vezes quando fazem uma reclamação sobre as medidas em relação à Cidade Velha, não é em benefício da comunidade, mas sim uma medida que na sua perspetiva é contra o seu próprio interesse”, alertou o responsável lembrando que as medidas ora contestadas são exigidas pela UNESCO, como condição fundamental para se manter o título de Património Mundial da Humanidade à Cidade Velha.

Hamilton Jair Fernandes adianta, por outro lado, que o manual urbanístico de Cidade Velha, que será socializado brevemente com a população, é um documento com normas sobre a construção para sítios históricos, com medidas preventivas e linguagem muito mais informal.

“Proponho que seja feita uma reflexão muito mais alargada com a comunidade, todos os intervenientes que atuam na Cidade Velha, ver o que já foi feito e o que se pode fazer mais, porque um plano de gestão para um sitio património mundial pressupõe a interação e a participação da comunidade, e para isso há que ter em conta as reclamações e a insatisfação da comunidade, interpretando-as como um sinal orientador a nível de estratégias”, admite o PCA do Instituto do Património Cultural.

No seu entender, o mais importante é conceber um projeto de longo prazo para a Cidade Velha em que o Governo, o município, os atores sociais, económicos e outras instituições estejam engajados e alinhados numa estratégia comum para a divulgação do sítio.

A Cidade Velha recebe atualmente 70 mil visitantes por ano, segundo os dados do Instituto do Património Cultural.

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