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Navegador solitário português quer viver em Cabo Verde

Ricado Diniz está a caminho do Brasil

23/05/2014 | Fonte: SAPO c/ Inforpress

Ricardo Diniz | Ricardo Diniz | Foto @ Inforpress

Ricardo Diniz, navegador solitário português que está de passagem por Cabo Verde, a caminho do Brasil, tem uma certeza: quer, no futuro, regressar, “viver aqui três a quatro meses”,  trabalhar “em qualquer coisa” e ser “mesmo da terra”.

O navegador solitário, que se diz “literalmente conquistado” pelas pessoas de São Vicente, que fazem aqui “toda a diferença”, revelou, num exclusivo à Agência Inforpress, que já sente saudades e, até, “de certa forma”, está “bastante contente” que ainda não tenha que partir já.

“Tem sido especial estar aqui, ser acolhido pelos cabo-verdianos de forma extremamente meiga, calorosa”, lançou o velejador à Inforpress, acrescentando que, quando anda na rua, de cinco em cinco minutos as pessoas desejam boa sorte e força a si e à selecção de futebol Portugal para o mundial do Brasil.

Desde o momento em que o veleiro FlyTap chegou ao Mindelo, assinala Ricardo Diniz, o “carinho”, a “simplicidade na maneira das pessoas sorrirem” e de dar um abraço, tocaram-no e, por isso, precisou, as memórias que leva daqui são “essencialmente desses momentos com as pessoas”.

Desde os 17 anos a trabalhar fora de Portugal, o seu país de origem, Ricardo Diniz já se abancou nas Caraíbas, Inglaterra, França, Itália e nos Estados Unidos, mas Cabo Verde “é especial”.

“Tenho pena de não poder ir a outras ilhas, toda a gente me diz ‘tens de ir a Santo Antão que é tão bonito’, e a outras ilhas, gostava muito de cá voltar com os meus filhos e eles conhecerem um bocadinho daquilo que o pai está a conhecer agora nesta viagem”, precisou.

A cachupa guisada, porque ainda não degustou a fresca, foi pequeno-almoço e lanche do navegador durante dias a fio, “e quem vem do mar é mesmo disso que precisa para voltar a pôr força no corpo”, hoje vai almoçar em casa de “amigos da terra” e à tarde surfar numa das praias da ilha.

Mas Ricardo Diniz, rapidamente, muda o semblante, agora mais carregado, quando a questão é o ambiente e o lixo que o ser humano está a atirar para os oceanos. Aliás, qualifica de “drama muito grande” a degradação do ambiente no mar.

“O problema é que de um modo geral, comparado com as minhas primeiras viagens, nos anos 90, o mar está francamente diferente”, explica, acrescentando que pode-se não ver objectos mas nota-se uma “película fina à superfície”, o que revela, no seu entender, que o “topo do mar já não está límpido”, com uma “espécie de um ligeiro óleo”.

“Isso é fruto do impacto do homem, da poluição constante, do lixo que se atira para o mar de forma absurda, dos plásticos que se decompõem até ficarem em micropartículas que não conseguimos ver mas que estão lá e entram na nossa cadeia alimenta”, concretizou.  

Ele próprio, na viagem antes de chegar ao Mindelo, foi vítima desse lixo quando um resto de uma rede de pesca a boiar no mar “foi apanhado” pela hélice do motor do barco, o que o fez pedir assistência, pois não tinha motor para entrar na marina.

“Da minha parte, tenho, em todos os pormenores, muito cuidado com o lixo. Por exemplo tenho oito painéis solares no FlyTap para que não precise nunca de ligar o motor para carregar as baterias do barco, ou seja, só com a energia do Sol tenho a potência que preciso para os computadores, para o GPS, para a música, para o radar, para o piloto automático”, lançou o velejador, para quem pequenos gestos como reciclar e reutilizar podem fazer toda a diferença.

A terceira etapa da expedição que o vai levar ao Brasil, depois da saída de Lisboa no dia 27 de Abril e escalas na ilha da Madeira (Portugal) e em São Vicente, ainda não tem uma data certa.

“Estamos a fazer contas de meteorologia porque o timing da expedição é para chegar ao Brasil em cima do 10 de Junho”, considerou, já que não chegar “nem muito antes nem muito depois”.

Conforme explicou é “muito difícil fazer previsões” porque se trata de um barco à vela, quando não há vento ele não anda, quando há vento ele anda muito e às vezes “voa”, e, por isso, tem que fazer “a pontaria” daqui do Mindelo para não chegar nem muito cedo nem muito tarde ao Brasil.

Mesmo assim, avançou que antes do dia 24 não deve ir para o mar para cumprir as 2.000 milhas até ao Brasil.

“Como o barco nunca vai em linha recta, poderão ser mais 200 ou 300 milhas, se calhar é coisa para demorar entre 13 a 16 dias”, vaticinou.

A missão é levar uma garrafa com mensagens de pessoas de todo o mundo a desejar boa sorte e força à selecção de Portugal para o mundial de futebol, entregar a bandeira de Portugal ao capitão da selecção e uma bandeira da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para entregar à Santa Casa de Misericórdia de Salvador da Baía, que é a primeira fora da Europa.

Sozinho à vela, apenas com a companhia da gata “Victoria”, Ricardo Diniz é o rosto da expedição que tem como padrinho Luís Figo, o mais internacional dos futebolistas portugueses, e como madrinha a cantora brasileira Roberta Sá, sendo a companhia aérea portuguesa TAP a principal patrocinadora.

“Um grande abraço de gratidão pela forma como me receberam em São Vicente e fizeram-me sentir em casa, desejar força para a vida, os projectos e os sonhos dos cabo-verdianos, não interessa quem somos, donde viemos, onde nascemos, o importante é fazer o que podemos com o que temos e arranjar caminho e forma de fazer acontecer os nossos sonhos, obviamente voltarei”, concluiu.

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